1 de agosto de 2011

Diabetes Mellitus

O diabetes melittus é uma doença que se caracteriza pelo aumento da taxa de glicose no sangue. Ocorre devido a deficiência ou insuficiência de insulina, um hormônio produzido pelas células do pâncreas responsável pela utilização da glicose sangüínea por todas as células do organismo. A ação da insulina é basicamente a de quebrar as moléculas de glicose vindas da digestão dos carboidratos, fazendo com que elas consigam penetrar nas células fornecendo combustível para garantir o funcionamento dos órgãos e tecidos do organismo. Quando pouca ou nenhuma insulina vem do pâncreas, o corpo não consegue absorver a glicose do sangue; as células começam a "passar fome" e o nível de glicose no sangue fica constantemente alto. O mesmo acontece quando o organismo oferece resistência a ação do hormônio.
Esta doença pode se apresentar sob duas classes distintas - Diabetes Mellitus Insulino-Dependente (DMID) e Diabetes Mellitus Não Insulino-Dependente (DMNID).

No diabetes mellitus insulino-dependente (DMID) ou tipo 1, as células do pâncreas que normalmente produzem insulina foram destruídas devido a um processo auto-imune. Por isso, pessoas com esse tipo de diabetes, dependem e devem injetar insulina subcutânea (embaixo da pele). O DMID ocorre freqüentemente em jovens, e sua causa parece relacionada a fatores genéticos.

O diabetes mellitus não insulino-dependente (DMNID) ou tipo 2 é responsável pela maioria dos casos da doença, ocorrendo mais em adultos. Todos os diabéticos tipo 2 produzem insulina quando diagnosticados. Mas uma deficiência na secreção do hormônio também pode acontecer. O principal motivo que faz com que os níveis de glicose no sangue permaneçam altos está na incapacidade das células  de usar toda a insulina produzida pelo pâncreas. Assim, muito pouco da glicose presente no sangue é aproveitado por estas células. Esta ação reduzida de insulina é chamada de "resistência insulínica"; que é inclusive o que justifica a relação de DMNID com a obesidade, pois o excesso de peso contribui enormemente para a resistência à insulina. Além da obesidade, o processo de envelhecimento também se relaciona com o diabetes. Isso porque existem fatores que predispõem o idoso ao diabetes, como: diminuições na insulina relacionadas a idade, aumento de gordura corporal, atividade física diminuída e doenças coexistentes. O DMNID freqüentemente está associado a hipertensão arterial e hiperlipidemia (aumento nos níveis de colesterol e triglicerídeos).
Os sintomas da doença geralmente consistem em sede excessiva, diurese aumentada, maior predisposição à infecções e se o nível de glicose estiver muito alto, pode acontecer dificuldade de cicatrização. As principais e freqüentes complicações são as alterações de:
* visão (retinopatia diabética), podendo ocorrer cegueira;
* rins, onde pode acontecer nefropatia diabética levando a mudanças funcionais renais, com risco de levar a insuficiência renal e diálise;
* nervos, levando a neuropatia diabética onde as conseqüências podem ir desde formigamento das mãos e pés, hipotensão postural (queda de pressão quando a pessoa se levanta) até impotência sexual.
* vasos e artérias, que pode levar a ocorrência de aterosclerose, doenças coronárias como infartos e anginas, doenças dos vasos do cérebro como derrame ou ainda nos vasos das pernas, com possibilidade de formarem-se feridas, chegando até a amputação.
Estas alterações são complicações tardias do diabetes. Além destas, o paciente diabético também é suscetível a complicações agudas, principalmente se o diabetes não for controlado, como hipoglicemia; cetoacidose diabética, sendo que estas duas ocorrem mais em DMID; e o coma hiperosmolar não-cetótico, que geralmente ocorre no contexto de DMNID, principalmente em idosos. 
A hipoglicemia é um efeito comum da terapia de insulina. Isso porque este hormônio pode potencializar tanto a entrada de glicose no interior da célula, que seu nível no sangue cai excessivamente. Os sintomas são tremores, suor, palpitações e fome e com a complicação do quadro podem ocorrer ausência de coordenação e coma.
A cetoacidose diabética ocorre em situações onde as gorduras estão sendo utilizadas como fonte de energia. Esse processo leva a formação de compostos ácidos conhecidos como corpos cetônicos ou cetonas, que podem produzir sintomas como poliúria (micção excessiva), polidpsia (sede excessiva), hiperventilação, desidratação, odor característico das cetonas e fadiga. Se não tratada pode levar ao coma e a morte.
O coma hiperosmolar não-cetótico acontece devido a um aumento agudo de glicose no sangue associado a um processo de desidratação. Acontece confusão suave, alucinações, podendo chegar até o coma.
Há uma forma de intolerância à glicose que pode acontecer usualmente durante a gravidez, denominada de diabetes gestacional. Acontece porque durante a gestação os hormônios antagonistas (hiperglicemiantes) à insulina têm os seus níveis aumentados. Esta alteração geralmente ocorre durante o segundo ou terceiro trimestre de gravidez, e após o parto, a tolerância à glicose retorna ao normal na maioria das mulheres. No entanto, existe a possibilidade de uma mulher que sofreu desse tipo de diabetes venha desenvolver o diabetes tipo II mais tarde, após o nascimento de seu filho.
O diabetes também pode ainda acontecer associado a doença pancreática, ou a endocrinopatias como acromegalia, síndrome de cushing, aldosteronismo, feocromocitona e hipertireoidismo. Agentes químicos ou drogas são outros que podem contribuir para a intolerância à glicose e diabetes. Ácido nicotínico, glicocorticóide e hormônio tireoidiano são alguns deles. Ambas as formas são raras de acontecer.
A terapia nutricional do diabetes tem como objetivo manter o peso corporal dentro de valores normais para a altura e idade. O aumento do peso por aumento da gordura corporal é um fator desencadeante de resistência à insulina.
A alteração no metabolismo dos carboidratos não é motivo para impedir o consumo destes, porém verificar sua qualidade se faz essencial. Deve-se dar preferência aos carboidratos complexos pois, são absorvidos de forma mais lenta, provocando menores oscilações da glicemia, como é o caso do amido presente nas massas e leguminosas. Deve-se tomar cuidado com um outro tipo de amido, presente no arroz, na batata e no pão branco, porque apresentam maior velocidade de absorção e contribuem para a hiperglicemia. Estes devem ser consumidos com moderação. Quando o carboidrato vem acompanhado de fibra solúvel (presente nas leguminosas, frutas, farelo de aveia)  ocorre uma melhora nos niveis glicêmicos, pois a fibra provoca atraso na liberação do bolo alimentar do estômago para o intestino, com isso a glicose vai sendo absorvida devagar e chega no sangue lentamente. Este efeito contribui para evitar a hiperglicemia. Além disso, as fibras solúveis são importantes para diminuir os nivéis de colesterol e triglicerídeos, carreiam sódio evitando o aumento na pressão arterial e favorecem formação de bolo fecal. Os carboidratos denominados de simples, presente nas frutas (frutose) e hortaliças do tipo B ( cenoura, chuchu, vagem, ervilha, beterraba, quiabo, nabo) devem ser ingeridos em menor quantidades, uma vez que são degradados rapidamente em moléculas de glicose, elevando a glicemia. Abolir o açúcar refinado é primordial. Tente trocá-lo por adoçantes artificiais como aspartame e acesulfame K, que não possuem uma quantidade significativa de calorias.
Avaliar a quantidade e qualidade das gorduras presentes na dieta é imprescindível. Não se pode esquecer que o diabetes, principalmente o tipo II, pode estar associado a hiperlipidemias, obesidade, hipertensão arterial e complicações em vasos e artérias levando a doenças cardiovasculares.
Diminuir fortemente o consumo de gordura saturada, encontrada nas carnes gordas, queijos, bolos, biscoitos, produtos de confeitaria é essencial, pois este tipo de gordura favorece o desenvolvimento de lesões na parede da artéria e formação de placa de ateroma levando a aterosclerose, a principal causa de ataque cardíaco, acidente vascular cerebral, angina e infarto do miocárdio.
Se por um lado a gordura saturada deva ser evitada, o mesmo não vale para os peixes. Estes devem ser consumidos regularmente, principalmente os de alto mar e água fria, por serem ótima fonte de ácidos graxos poliinsaturados ômega-3. Os ácidos graxos ômega-3 tem efeitos antiinflamatórios, o que é importante na aterosclerose, uma vez que parte do processo desta consiste numa reação inflamatória dos vasos sangüíneos danificados; tem a capacidade de tornar o sangue menos propenso a coagular; e ainda exercem impacto nos níveis de triglicerídeos e lipoproteínas. Outro alimento rico em ácidos graxos ômega-3 é a semente do linho ou linhaça.
Para cozinhar e temperar os alimentos, a gordura escolhida deve ser o azeite. Seu consumo regular relaciona-se com a baixa incidência de doenças cardiovasculares, por ser rico em compostos fenólicos dotados de uma capacidade antioxidante fortíssima.
 Em relação a proteína, não se faz necessário uma ingestão em quantidades exageradas, principalmente porque dietas de baixo teor de proteína tem sido benéfica em termos de retardar a deficiência renal.
Os legumes e hortaliças, juntamente com as frutas devem estar sempre presentes na alimentação de todas as pessoas, e especialmente na dos diabéticos. Além de serem boa fonte de fibras, são riquíssimos em minerais e vitaminas, com destaque para a vitamina C e os carotenos (beta-caroteno, licopeno e outros), ambos com propriedades antioxidantes, sendo por isso vitais na defesa e prevenção de doença cardiovascular. Tomate, cenoura, abóbora, couves, espinafres, brócolis, salsa, pêssego, damascos, etc, são alguns dos que são ricos nestas substâncias.
Comer várias vezes ao dia e pouco de cada vez evita hiperglicemia resultante de grandes refeições, assim como se previne a hipoglicemia que poderia acontecer entre as refeições muito espaçadas, principalmente em pessoas que fazem uso de insulinoterapia. Essas flutuações nos níveis de glicose são comuns em diabéticos, mas uma correta distribuição e fracionamento dos alimentos é capaz de detê-las.
Quanto ao uso de bebidas, o uso de refrigerante é desaconselhável por ter elevado teor de açúcar. Uma alternativa seriam os “Light” ou “Diet” que tem o açúcar totalmente substituído por adoçante. Mas continuam sendo excitantes do trato gastrintestinal e contribuindo para maior distensão abdominal e flatulência, portanto devem mesmo ser evitados. Bebidas alcóolicas não devem ser consumidas, principalmente porque potencializam o risco de hipoglicemia e contribuem para alteração no metabolismo das gorduras, favorecendo aumento de triglicerideos. O exercício deve ser uma parte integrante do plano de tratamento para as pessoas com diabetes por ajudar no controle de peso, melhorar a sensibilidade à insulina e reduzir os fatores de risco cardiovasculares. Também diminui os efeitos dos hôrmonios contra-reguladores (glucagon, GH, epinefrina e cortisol), o que, por sua vez, reduz a produção de glicose hepática, também resultando no controle melhorado de glicose. Mas é importante que este exercício seja devidamente orientado, principalmente em pessoas que fazem uso de insulina ou algum hipoglicemiante oral. Estas são muito mais propensas a desenvolverem hipoglicemia.
Todas estas estratégias relacionadas à nutrição são úteis para a obtenção de resultados metabólicos desejados e incluem fazer melhores escolhas alimentares. Segui-las significa aprender a conviver com a doença, mesmo que isso implique em algumas mudanças de estilo de vida.

Lúcia Moura Cardoso – Nutricionista Clínica Funcional e Mestre em Psicologia Social (Escrito em 07/05/2001)

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