Nutricionista clínico, quem é de fato este profissional? O que as pessoas esperam dele? Se me fosse questionado o perfil do nutricionista, no início de minha carreira, após a formação acadêmica, diria simplesmente que é um dos profissionais vinculados à promoção, preservação e manutenção da saúde.
Desempenha um papel de destaque pela sua responsabilidade com o bem estar biopsicosocial da sociedade.
Ao nutricionista compete diante do diagnóstico, fazer uma anamnese alimentar, calcular a dieta individualizada, suplementar vitaminas e minerais, prescrever e ensinar o uso de alimentos para preservação da saúde (reeducação alimentar) e para a cura de diversas patologias (dietoterapia).
Logo, a nutrição enquanto ciência, busca diminuir as carências ou deficiências nutritivas, contribuindo para melhorar a saúde através do consumo adequado dos alimentos, evitando ou minimizando o uso de medicamentos.
É necessário que se procure educar as pessoas e formar uma consciência alimentar – saber o que comer e quais alimentos comer em seu benefício. Esta tarefa que parece ser simples, começa a tomar um aspecto dinâmico, e me leva a crer que exercer a profissão do nutricionista é mais que tratar com alimentos, é fazer parte de um grupo de profissionais que não cuida apenas da doença mas que está diretamente associado aos problemas psicosociais, o que implica em conhecimento sobre crenças, valores, atitudes e atribuições que estariam ligados ao paciente e o grupo social no qual está inserido.
Parece que os hábitos alimentares são parte inseparável da vida. Entretanto, a evidência científica do valor do alimento não tem sido argumento suficiente para determinar mudanças de hábitos alimentares. Fatores psicosociais são motivações fortes e merecem observação e estudo, afim de que seja possível aplicá-los eficazmente na educação nutricional.
Admitindo a atitude como um sistema de cognições, crenças e tendências avaliatórias relacionadas a ações, as crenças aí localizadas tendem a gerar um comportamento. Se a mudança de comportamento não decorre necessariamente da mudança de atitude parece-me pertinente a reflexão sobre a relação nutricionista-paciente como um caminho a ser trilhado na busca de melhores resultados, na aceitação da dieta e na mudança de comportamento, considerando adicionalmente que mudanças de comportamento podem se relacionar à mudança de vida, de estilo de vida.
Desta maneira o conceito de “encontro” proposto por Martin Buber em sua obra “Eu e Tu” abre várias facetas de uma pedra a ser lapidada, onde cada face da pedra, ou seja, cada aspecto da pessoa será revelado, mediante a análise e a escuta. De forma bastante atual, Buber parece retratar com propriedade o momento presente, a questão da relação humana. Deixa claro sua afinidade pelo princípio kantiano de que não devemos tratar nosso semelhante simplesmente como um meio e esclarece que parte da prosperidade da relação está vinculada à capacidade de se desenvolver o diálogo que não constitui uma conversação, mas sim um encontro, onde cada pessoa volta-se para outra, de modo que o outro possa vivenciar o outro lado sem perder sua especificidade.
Alguns pacientes trazem sensações internas do seu Eu psicológico que estão latentes `a nossa visão e que serão melhor compreendidas, quando nos fizermos presentes na relação com o paciente, onde se fazer presente é se tornar presente ao ser e com o ser.
Um dos principais objetivos do tratamento humanista é ajudar o paciente a descobrir-se, descobrir o que quer da vida, descobrir os seus potenciais. Em termos clínicos, poder-se-á saber quem é o outro, como ele reage e de que forma aceita a prescrição da dieta. No surgimento de possíveis conflitos, como ele os enfrenta ou resolve. Como lidar com dificuldades pessoais com a nutrição. Como seleciona seus alimentos. O exercício de se colocar na posição do outro, na ótica do paciente, nos permite visualizar o problema que é não só do interesse do outro, mas nosso também, e com isso estaremos não só avaliando os méritos da posição alheia, mas também conhecendo a nos próprios. Cabe aqui ressaltar que a mudança nutricional ocorrerá na condição que o paciente permitir, ou seja, da maneira que ele conseguir. Não existe uma mudança atitudinal a ser seguida, uma “receita”. Ela acontece, é trabalhada e buscada a partir da autenticidade, que é compartilhada de ambas as partes. Procuro colocar minha opinião sobre o comportamento alimentar e o paciente expõe suas dificuldades. A partir daí, tentamos dentro da realidade do paciente, promover as possíveis mudanças que serão construídas de forma mais lenta ou rapidamente, dependendo da condição de cada um.
O que eu quero dizer é que embora a Nutrição seja objetiva e técnica, na relação Eu-Tu, o que foi prescrito na dietoterapia considerando as alterações metabólicas e aspecto fisiopatológico, adquire posteriormente um formato mais humano e personalizado. É a individualização do trabalho científico! Isso proporcionará ao paciente a percepção de estar sendo cuidado por um profissional que se preocupa com seu comprometimento orgânico, mas que considera e reavalia a forma de aplicação científica dentro da sua própria história. Penso que esse alimento que do ponto de vista nutricional deveria ter apenas função terapêutica, serve de espelho para renascer os aspectos psicológicos e atitudinais de cada um e para reconhecimento do que esses pacientes fazem com sua alimentação e consequentemente com sua vida.
Acredito que o nutricionista que estiver atento ao “eu” do seu paciente, desejando compreender e apreender aquilo que lhe é incomodo ou significativo poderá, no momento da consulta ajudar o paciente trazer à consciência os desajustes emocionais ou sentimentos que influem no nutricional. Com isso, o paciente estará sendo estimulado a expressar-se ao invés de moldado, e as chances serão maiores para sua transformação, crescimento e desenvolvimento, como pessoa e também em suas atitudes e comportamento alimentar.
Lúcia Moura Cardoso – Nutricionista Clínica Funcional e Mestre em Psicologia Social (Escrito em 29/01/2002)
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