A hipertensão é definida pela elevação anormal e constante de um ou ambos níveis pressóricos. Ocorre geralmente quando a pressão sistólica ou pressão máxima que equivale ao bombeamento do sangue pelo coração é maior ou igual a 140mmHg, e a pressão diastólica ou pressão mínima que representa o momento que o coração relaxa maior ou igual a 90mmHg.
A pressão arterial é a força que faz com que o sangue circule pelas artérias e chegue a todos os tecidos para fornecer oxigênio, água e nutrientes. Essa força é o resultado da ação do coração e da resistência que as artérias colocam contra a passagem do sangue. Na hipertensão, o fenômeno de relaxamento ou distensão das artérias está prejudicado, fazendo com que a pressão arterial se eleve. Este aumento da rigidez arterial faz com que alguns setores sofram mais e os locais mais sensíveis são: o cérebro, o coração, o rim e as artérias da retina. Os vasos, por possuírem uma estrutura fina e sensível, ficam mais estreitos e endurecidos quando o sangue está circulando com a pressão alta e ao longo do tempo podem até entupir ou romper. Quando isso acontece no coração, o entupimento de um vaso leva à angina e pode ocasionar infarto. No cérebro, o entupimento ou rompimento de um vaso leva ao “derrame cerebral” ou acidente vascular cerebral. Nos rins, também pode acontecer entupimento, levando à paralisação do órgão.
A maioria das pessoas que apresentam hipertensão arterial não expressam uma causa orgânica definida para o seu desenvolvimento, o que caracteriza o quadro de Hipertensão Arterial Essencial ou Primária. Hiperatividade do sistema nervoso simpático, e alterações de sistemas renais e endócrinos que controlem o sódio, e cálcio podem estar envolvidos na causa deste tipo de hipertensão. Em um menor número, existem casos onde a hipertensão é produzida por uma outra doença. É o que se chama de Hipertensão Arterial Secundária. Podem ser causa de hipertensão secundária o uso de estrógenos - pilulas anti-concepcionais - as doenças renais, vasculares e endócrinas.
Quanto à incidência desta síndrome em relação ao sexo, ocorre mais em homens. Após a menopausa, é maior nas mulheres, provavelmente devido ao aumento de peso e as alterações hormonais comuns nesse período. Em relação a idade, os idosos estão mais sujeitos a hipertensão, e este é um risco que não se pode modificar porque com o avançar da idade é comum os vasos se tornarem menos elásticos e mais rígidos. Assim como não se modifica, o fator hereditário. O risco dos filhos de pais hipertensos desenvolverem a doença é sempre maior que o risco dos filhos de pais não hipertensos, mas é difícil dizer como exatamente o potencial genético contribui para sua instalação. Outro fator de risco é a gravidez, durante a gestação as mulheres têm maior possibilidade de desenvolver pressão alta.
Existem questões importantes, prontamente controladas por medidas dietéticas uma vez que estão associadas a fatores nutricionais, que devem ser trabalhadas no quadro de hipertensão arterial. São elas: sobrepeso, consumo exagerado de sal, consumo de álcool e ingestão de gordura inadequada.
O excesso de peso contribui imensamente para a elevação dos níveis pressóricos. Essa relação pode ser explicada através de uma alteração muito comum no obeso, que é o potencial que este encontra em desenvolver resistência à insulina, hiperinsulinemia e mudanças físicas nos rins. A hiperinsulinemia (aumento de insulina no sangue) é capaz de promover maior reabsorção renal de sódio e aumento da atividade simpática, e um desses efeitos ou ambos são capazes de aumentar a pressão arterial. Por isso o controle do peso se faz importante na prevenção e no tratamento desta síndrome. A resistência à insulina acontece comumente também em diabéticos, motivo pelo qual a hipertensão também está associada ao diabetes mellitus. Fatores como hiperinsulinemia, dislipidemia e hipertensão, comuns em indivíduos com excesso de peso, podem ainda levar a aterosclerose, contribuindo para instalação de doenças cardiovasculares.
Um consumo exagerado de sal também exerce forte papel no desenvolvimento da hipertensão arterial. Quando uma pessoa come muito sal, ocorre um aumento da quantidade de água no sangue e tecidos entre as células (líquidos extracelulares), resultando em aumento do sangue circulante e posteriormente em aumento da pressão arterial. Por isso os alimentos ricos em sódio como embutidos, enlatados, extratos de carne e galinha, defumados, salgados, sucos engarrafados devem ser evitados. O sal utilizado na hora de cozinhar os alimentos também deve ser reduzido e o saleiro, muito das vezes presente em nossas mesas, esquecido.
A hipertensão já contribui para que aconteça lesões na parede arterial (mudanças estruturais) e obstrução no vaso sanguíneo. Associada a uma inadequação no consumo dos lipídios (gorduras), as alterações nestes vasos podem ser bem mais significativas. Isso porque os lipídios quando consumidos em quantidades e/ou de forma inadequada se acumulam no sangue e podem começar a desenvolver parte do processo da aterosclerose, fornecendo colesterol e LDL oxidada para a formação da placa de ateroma, a responsável por obstruir os vasos. A aterosclerose é a principal causa de acidente vascular cerebral e ataques cardíacos, angina e infarto agudo do miocárdio.
Em relação à qualidade das gorduras presentes na dieta, os ácidos graxos saturados devem ser evitados. Estes, que são encontrados em gorduras animais, queijos, bolos, biscoitos e outros produtos, aumentam no sangue os níveis de LDL (mau colesterol) e como a LDL é rica em colesterol, esta também aumenta.
Devemos consumir principalmente aos ácidos graxos poliinsaturados, (com grande destaque para os ômega-3) e monoinsaturados.
O ácido graxo monoinsaturado presente no azeite, tem um efeito apreciável sobre os lipídios sanguíneos, pois reduz os níveis séricos de colesterol, triglicerídeos e LDL colesterol, o que lhe confere o título de gordura cardioprotetora. É também dotado de capacidade antioxidante por ser rico em compostos fenólicos.
O ômega-3 (W-3) é um tipo de gordura poliinsaturada que contribui para baixos níveis sanguíneos de triglicerídeos, LDL e VLDL colesterol, aumentando os níveis de HDL (bom colesterol). Essa gordura possui a capacidade de “afinar o sangue”, ou seja, torna o sangue menos propenso a coagular. Por todas essas ações que desempenham são devidamente relacionados ao controle de doença cardiovascular. E como possuem efeito antiinflamatório são importantes também para prevenir a aterosclerose. A semente de linho ou linhaça também contém ômega-3.
Para aumentar os efeitos cardioprotetores através da alimentação, faz-se necessário incluir na alimentação frutas, legumes e verduras. A cada dia descobre-se que eles contêm muito mais do que vitaminas e sais minerais, indispensáveis para manter o organismo funcionando. Aos poucos, diversos nomes - como licopeno e isoflavonas - vão aumentando a lista de um grupo de substâncias conhecidas por fitoquímicos. Eles compõem os alimentos de origem vegetal e já provaram ser capazes de trazer enormes benefícios à saúde. Os alimentos com esses compostos que são ótimos para contra-atacar doenças são chamados de alimentos funcionais. Para pertencer a esse grupo, o alimento precisa apresentar determinadas propriedades, como proporcionar equilíbrio ao funcionamento celular ou ter alguma ação que vá além de nutrir o corpo.
É caso das fibras solúveis que podem ser encontradas em frutas, cereais e feijões e são capazes de produzir redução nos níveis séricos de colesterol e LDL. Produtos com aveia principalmente são uma fonte dietética ampla de fibras solúveis b-glucan redutoras de colesterol. Há agora uma concordância científica significativa de que o consumo deste alimento vegetal em particular pode reduzir o colesterol total e a lipoproteína de baixa densidade (LDL), desse modo reduzindo o risco de doenças cardíacas coronarianas.
As Isoflavonas (principalmente Genisteína e Daidzeína) são capazes de reduzir o LDL e aumentar o HDL colesterol. A soja é uma fonte dietética significativa destes componentes e por isso desempenha um papel preventivo e terapêutico na doença cardiovascular.
A família das aliáceas, onde inclui-se o alho e a cebola, impedem que o colesterol se fixe nas paredes dos vasos sanguíneos, reduzindo a chance de formação de placa de ateroma. Aumentam também a elasticidade do vaso, e vasos mais flexíveis atendem melhor às agressões provocadas pela pressão arterial alta. O alho, além de outras substâncias, contém um aminoácido sulfurado conhecido como Aleína que, por ação das enzimas da saliva, se transforma em Alicina que tem ação anticancerígena, antibacteriana, além de reduzir o colesterol no sangue. Apresenta ainda alta concentração de Selênio.que tem açào antioxidante. A cebola é rica em Quercetina, que afina o sangue, diminui o colesterol prejudicial e aumenta o bom colesterol e afasta os coágulos sanguíneos.
Os Carotenos (principalmente Beta-caroteno e Licopeno), encontrados em abundância no tomate, cenoura, abóbora, couves, espinafre, brócolis, salsa, pêssego, cereja e damasco possuem propriedades antioxidantes e anti-tumorais.
Entre os folhosos, a couve-de-bruxelas, a couve-flor, a couve-manteiga, o brócolis e o repolho devido a seus componentes como Bioflavanóides e Indol-3 Carbinol são antioxidantes e ainda reduzem o risco do câncer de mama.
Os Monoterpenos, Fitalidas e Policetilenos, presentes na salsa, alho-poró e aípo também são antioxidantes. O gengibre, através dos Gengiróis, evita a formação de coágulo sanguíneo e aumenta as defesas do organismo. A erva-doce, por possuir potássio e Flavanóides ajuda a regular a pressão arterial e diminui o risco de câncer e infarto.
O chá verde possui compostos antioxidantes, como as Catequinas e Flavóides, que podem conferir proteção contra vários tipos de câncer e doenças cardíacas, pois é capaz de amenizar a oxidação e diminuir o LDL colesterol. O processo tradicional que produz o chá verde é simples: as folhas das plantas são cozidas no vapor, depois enroladas e desidratadas. O vapor destroi as enzimas que de outra forma fermentariam as folhas. Esta falta de fermentação conserva quase todos os polifenóis naturais (antioxidantes poderosos que conseguem proteger as células).
O Limão, a Laranja e outras frutas cítricas são ricas em Bioflavanóides, importantes antioxidantes. As Amoras, Framboesas e Groselhas bem como as Cerejas e outras frutas vermelho escuras contém as Antocianinas, que ajudam a deixar as paredes dos vasos sanguineos mais fortes. O Abacate faz bem para as artérias, reduz o colesterol e dilata os vasos sanguíneos. Sua principal gordura, o Ácido Oléico Monoinsaturado, age como antioxidante, bloqueando a toxidade do mau colesterol. A noz, por ter arginina, ácidos linoléico, linolênico e araquidônico protege o coração e ajuda na cicatrização de ferimentos.
Não só os alimentos vegetais possuem componentes fisiologicamente ativos. Alguns produtos de origem animal também apresentam tais componentes. Dentre as fontes animais que se enquadram no quesito de alimento funcional destacamos além do peixe e óleos de peixe que já foram abordados, produtos de laticínios como o leite fermentado. Este através de seus componentes Pré e Pro-Bióticos ajudam em casos de hipertensão e hipercolesterolemia, além de câncer de cólon, infecções no trato urinário de mulheres e intolerância à lactose.
Algumas vitaminas também são essenciais neste contexto. É o caso da vitamina C, que atua na biossíntese e excreção do colesterol, atuando ainda como antioxidante e anti-tumoral. A vitamina E é um importante antioxidante, vital para evitar oxidaçào da LDL e capaz de aumentar o HDL colesterol. Suas melhores fontes são os óleos vegetais, óleo de gérmem de trigo, azeite, girassol, desde que não refinados (obtidos a frio) e cereais integrais. Enquanto que as fontes de Vitamina C são frutas como kiwi, laranja, acerola, morango, abacaxi, brócolis, tomate, manga.
Entre os minerais, o magnésio se destaca por possuir efeito vasodilatador. O potássio também é um mineral que se faz importante principalmente por três motivos. Primeiro porque ajuda no ciclo e freqüência cardíaca. Segundo, porque alguns medicamentos usados no tratamento da hipertensão arterial contribuem diretamente para sua depleção e terceiro porque é um componente essencial do sistema que regula a quantidade de água e íons dentro de todas as células que constituem o corpo humano. Os alimentos ricos nesta substância são feijão, banana, tomate, beterraba, laranja e folhas verdes escuras. Os ricos em magnésio são nozes, leguminosas, grãos de cereais, peixe, leite e vegetais verdes escuros.
Bebidas alcoólicas devem ser evitadas. O álcool é considerado um agente hipertensivo, pois é capaz de aumentar a pressão sanguínea, atua como depressor do sistema nervoso central e ainda aumenta os níveis de triglicerídeos no sangue. Também são considerados agentes hipertensivos o café e o cigarro. A nicotina, um componente do cigarro, produz alterações cardiovasculares significativas como taquicardia e vasoconstrição periférica, seu uso prolongado predispõe ao infarto do miocárdio, arritmias cardíacas, distúrbios circulatórios periféricos e estimula a liberação do hormônio antidiurético, que leva a diminuição da diurese nos fumantes. O café afeta o metabolismo das gorduras promovendo aumento de triglicerídeos e colesterol no sangue. Amenizar hábitos tabagistas, o uso do famoso “cafezinho” e bebidas alcoólicas é fundamental para o tratamento e prevenção de hipertensão arterial e doença cardiovascular.
Existem estudos relatando a relação entre o consumo de vinho tinto com a menor incidência de doenças cardiovasculares. De fato, o vinho tem em sua composição um composto capaz de realizar efeitos realmente interessantes. Este componente se chama resveratrol e está presente na casca das uvas escuras. Têm poder antioxidante, possui ação antiinflamatória, oferece proteção contra o câncer, pode prevenir a oxidação do colesterol LDL, inibir a agregação plaquetária e a coagulação. O vinho também conta com outros componentes fenólicos como os flavanóides, luteonina e quercitina que também possuem propriedades antioxidantes; com as procianidinas que exercem efeito protetor sobre as paredes dos vasos sanguineos, aumentando a resistência das fibras colágenas; e com e os taninos, benéficos para o sistema imunológico.
Porém o consumo de vinho tinto deve ser feito de forma moderada e orientada já que é uma bebida vasoconstrictora ou seja aumenta os niveis pressóricos, podendo comprometer a pressão arterial. Como todos esses componentes tem a sua origem na uva escura, seria mais prudente consumir a própria fruta, com casca, ou então o seu suco natural.
A prática de exercício regular e devidamente orientado também é uma dica para aumentar o efeito protetor contra hipertensão e doença cardiovascular. O exercício atua diretamente na pressão arterial e fornece um bom condicionamento cardiovascular; retarda a aterosclerose, aumenta a vascularização do miocárdio, aumenta o HDL colesterol, melhorar a tolerância à glicose e sensibilidade à insulina. Como se não fosse o bastante, influencia ainda no balanço energético contribuindo para a queima de calorias.
Beber bastante água é outra grande dica (valendo também a água de coco por ser rica em minerais) principalmente se para o controle da hipertensão estiver sendo usado algum medicamento com característica hipotensora, como os diuréticos, antagonistas do cálcio, os betabloqueadores e os inibidores da ECA. Neste caso, como a perda hídrica e conseqüentemente a de eletrólitos (potássio, sódio, magnésio) é maior, é importante manter a hidratação do organismo.
Os medicamentos, devido as ações que exercem em todo o organismo, são capazes de interagir com nutrientes, muita das vezes levando a perda de vitaminas e minerais, alterações gastrointestinais, aumento da glicose sangüínea, alteração da função hepática e renal e aumento dos níveis de colesterol e triglicerídeos sanguíneo. Essas ações vão variar de acordo com o medicamento e dose utilizada assim como tempo de exposição à droga. Por isso, a terapia medicamentosa deve ser utilizada no tratamento da hipertensão somente quando todas as outras medidas não farmacológicas não são capazes de controlar os níveis pressóricos.
O problema da hipertensão arterial pode ser agravado também pelo estresse emocional. Reveja e avalie seus projetos de vida, impedindo que os mesmos provoquem mais perdas do que ganhos ao seu corpo.
A alimentação saudável ainda é sinônimo de boa saúde. Na hipertensão arterial, onde não existe uma única cura para o mal, é importante que todos esses fatores citados como forma de tratamento e prevenção estejam interligados, proporcionando assim uma melhor qualidade de vida.
Lúcia Moura Cardoso – Nutricionista Clínica Funcional e Mestre em Psicologia Social (Escrito em 02/05/2001)
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