Embora o câncer de mama seja um tipo de tumor “induzido hormonalmente” pelo estrogênio, este hormônio quando em equíbrio desempenha papéis importantes para promoção da saúde da mulher, uma vez que atua na proteção contra perda de densidade óssea; ajuda na absorção de cálcio pela corrente sanguínea; no trato urinário, contribui para manutenção das membranas exteriores da uretra e da bexiga afim de previnir infecções; estimula ainda a retenção de água e lubrificação de óleo na epiderme e interage com fatores de crescimento dos neurônios para proteger as células do cérebro contra a degeneração. Várias pesquisas têm demonstrado a importância da ação estrogênica no favorecimento da atividade dos neurotransmissores, sobretudo a acetilcolina, que está ligada diretamente a capacidade de memória. Além disso, parece estimular o crescimento de dendritos e sinapses nas células nervosas, ampliando os canais de comunicação.
Quanto à sua classificação os estrógenos podem ser agrupados como “bons ou maus”; “fortes ou fracos” e “químicos”. Dentre os grupos dos fortes, o estradiol é considerado um estrógeno forte sendo o principal estrógeno natural e o mais ativo produzido pelo corpo. A soja ou linhaça, conhecidas como estrógenos fracos ou fito-hormônios, são retiradas de plantas e os estrógenos químicos são substâncias químicas oriundas do meio ambiente, em especial pesticidas.
Para que o estrógeno possa funcionar é necessário que se ligue a um receptor. O receptor estrogênico é um estrutura protéica do citoplasma da célula dos orgãos-alvo (cérebro, ossos, coração, útero, mama) sensível aos estrógenos e que permite ao hormônio penetrar na célula. Este “encaixe” funciona como sistema chave-fechadura. A chave é o estrogênio e a fechadura o receptor. Porém quando estrogênios demasiadamente fortes, maus ou químicos chegam aos receptores da mama, o potencial para crescimento de células cancerosas aumenta, uma vez que o estrogênio afeta as células epiteliais que formam os sacos alveolares e os ductos lactíferos da mama. Logo, a utilização de estrógenos fracos, oriundos do alimento podem inibir o acesso de estrógenos fortes ao receptor da célula. Desta forma, o sinal que chega ao DNA da célula, se mostra enfraquecido, evitando assim o crescimento celular e consequentemente desenvolvimento do câncer.
Os alimentos parecem fornecer ferramentas para interromper os cursos hormonais seqüênciais que causam o câncer; reparar o DNA do material genético; desativar substâncias químicas nocivas; desativar as enzimas que estimulam reações químicas; encontrar e eliminar células mutantes; diminuir os níveis de agentes oxidantes atuando como antioxidantes e inibir o crescimento tumoral.
Os estrogênios podem ser metabolizados pelas enzimas do citocromo P-450 para produzir 2 –hidroesterona ou 16- alfa-hidroesterona. A hidroxilação no carbono 16 produz metabolitos que promovem maior atividade estrogênica, aumentando o risco de neoplasia mamária e uterina, ao passo que a hidroxilação em carbono 2, se opõem à carcinogênese. A obesidade suprime a hidroxilação em carbono 2 enquanto o exercício físico a eleva. A via carbono 16 parece ser elevada pelo teor dos lípidios alimentares
Logo, a conduta dietoterápica deverá ser esboçada com baixo teor de gordura saturada e aumento na ingestão de carboidratos complexos, uma vez que níveis elevados de gordura promovem altas taxas de estradiol. Este dado, nos faz refletir sobre a importância do controle de peso, uma vez que o excesso de gordura corporal potencializa a produção estrogênica, em especial na obesidade andróide, onde muitas vezes a hiperinsulinemia se faz presente. A insulina é um forte estimulador do efeito estrogênico, ou seja, atuam sinergicamente, estimulando o DNA a copiar mensagens para o crescimento e a divisão da células. Desta forma, o consumo de carboidratos complexos ou de baixo nível glicêmico e rico em fibras solúveis como leguminosas, cereais, farelo de aveia e hortaliças, podem ser utéis, pois promovem a formação de uma massa gelatinosa que torna mais lenta a absorção e reduz a assimilação rápida de glicose, diminuindo assim a resposta da insulina.
Os ácidos graxos ômega 3, encontrados em óleos de peixe e em peixes de alto mar e água fria (salmão, sardinha, cação, cavala, atum, etc), tem um efeito positivo sobre as células das mamas, pois diminuem a força do sinal que chega ao DNA. O mesmo ocorre com os ácidos graxos ômega 9 (azeite de oliva) e ácidos graxos monoinsaturados como óleo de canola. Já os alimentos ricos em ômega 6 que foram quimicamente alterados, pelo processo de hidrogenação podem diminuir a produção de prostaglandinas saudáveis, que agem reduzindo o efeito propulsivo nas células dos ductos lactíferos.
O National Cancer Institute tem avaliado a capacidade antitumoral de alguns alimentos. Tais substâncias ou fitoquímicos incluem os alilsulfidos dos alhos e cebolas, os fitatos dos grãos dos cereais e alguns legumes, os glutaratos dos grãos, os citrinos de frutos e vegetais, os linhanos no linho e na soja, a isoflavona na soja, saponinas nas leguminosas, indois, isoticiocinatos e ditioltiona nas crucíferas, ácido elágico nas uvas, morangos, nozes, amoras.
O indol-3 –carbinol presente na família das crucíferas (brócolis, couve-flor, couve-de bruxelas, rabanete, etc), se mostra um elemento significativo, pois é capaz de transformar os produtos da decomposição química do estrogênio em 2-hidroesterona, além de interromper o crescimento das células de câncer. Este nutracêutico pode ser desativado pelo calor, logo tais hortaliças devem ser ingeridas preferencialmente cozidas no vapor ou passadas na frigideira, untadas com azeite, afim de manter o ingrediente ativo.
A soja e a linhaça são duas fontes de estrogênio fraco que desempenham a função de bloquear os receptores estrogênicos. Tais alimentos possuem substâncias que se encaixam nos receptores estrogênicos, tendo pouco efeito sobre o DNA da célula e sobre o crescimento das células da mama; bloqueando o acesso dos estrôgenos fortes. Quando o tecido da mama amadurece, se torna mais resistente aos efeitos de substâncias carcinogênicas. Os ductos lactíferos de mulheres que nunca tiveram filhos são mais imaturos, o que pode ser amenizado pela proteína da soja que os amadurece oferecendo assim maior proteção a mulheres jovens. A genisteína é o nutracêutico presente na soja que produz o efeito bloqueador no câncer de mama, pois desloca eströgenos fortes e químicos dos receptores. Esta substância está presente na proteína da soja que também tem alto teor de fibra, baixo nível glicêmico, além ser fonte de aminoácido tirosina, precursor do neurotransmissor dopamina que desempenha papel importante na função motora do cérebro. Além disso, feijões de soja, produtos de soja não fermentável como o tofu, o leite de soja, proteína de soja em pó (shakes), contem isoflavonas e diadzeína. Tais isoflavanóides inibem o crescimento de células do câncer de mama, além de diminuirem os níveis de LDL–colesterol e favorecerem a absorção de cálcio ósseo. A ingestão de 30 a 60g de proteína de soja parece fornecer níveis representativos de isoflavonas, assim como 120g de tofu fornecem 30 a 40mg de genisteína. A semente de linhaça parece ser outra “ferramenta” possível de bloquear o percurso seqüencial do estrogênio, pois é uma fonte riquíssima em estrógenos fracos, além de ser fonte de ômega 3. O fornecimento da semente na forma moída e misturada a sucos, saladas, molhos, iogurtes, parece melhor favorecer seus efeitos benéficos.
O uso de carotenóides como betacaroteno, licopeno, luteína presentes no tomate, hortaliças verdes, cenoura, banana, batata doce, também podem ajudar com efeito antioxidante e anticarcinogênico. As células tumorais sintetizam e acumulam colesterol mais rapidamente que as células normais, desta forma, os tocotrienois presentes nas frutas e vegetais, também podem ser utéis na supressão dos tumores porque inibem a hidro-metil-glutaril CoA redutase que constitui, o passo importante para a síntese do colesterol.
Não devemos esquecer ainda dos grupos fenólicos, presentes nas uvas vermelhas e vinho tinto que além de anticarcinogênicas também possuem propriedades antiescleróticas, ao proteger a LDL da oxidação e inibir a ação antiplaquetária. Porém deve-se fornecer devida atenção ao consumo de álcool, pois o mesmo pode impulsionar quantidade de estrógenos para níveis elevados, além de depletar ácido fólico que se mostra diretamente ligado a ordenação normal dos genes.
O modo de cocção também merece atenção, mediante estudos que mostram que a grelha pode introduzir um potente carcinógeno chamado aminos heterocíclicos que contribuem para o desenvolvimento do câncer porque danificam o DNA da célula. Ferver, cozinhar em fogo brando ou escaldar e marinar produz menos heterocíclicos.
Penso que desta forma a nutrição poderá prevenir, promover um melhor estado nutricional na quimioterapia e proteger às células de uma possível recindiva.
Lúcia Moura Cardoso – Nutricionista Clínica Funcional e Mestre em Psicologia Social (Escrito em 18/02/2002)
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